domingo, 16 de março de 2008

Caverna do Dragão


Um pouco de poesia não faz mal
Nem um pouco de dor quando tudo vai bem
Socorro !!! só um pouco do pouco que resta
Do sonho de uma geração

Aperto firme meu cigarro
Não está tão frio assim, mas sigo com minha tôca
Minha blusa amarela e meu andar rápido
Na esperança de qualquer rua
Qualquer um pra quebrar a monotonia
Que rasga a existência nas páginas da revista veja
Nas telas quentes que congelam o coração

Olha que hoje deixei minha droga pra lá
Olha que hoje não espero nada
Olha que hoje recusei uma partida de sinuca
Com velhos amigos do bar

Nada sobrou de tanto passado
Pois recrio minha vida a cada passo
Sem deixar vestígios
Recrio a dor de tanta existência
Numa louca balada de madrugada

Um segundo de êxtase e nada demais
Um segundo de silêncio aonde ouço khrisna
E Buda e Jesus
Que explodem em vibrações aonde explodem guerras
Aonde correm nuas meninas sujas de nalpam

E aquela geração hippie se foi
Junto com os punk e beatnicks
Presenteando me a geração do nada
Que lê Paulo Coelho e se entope de big macs
Deliciosos big macs no fashion mall

Agora aonde estou só ouço a moto serra
Disfarçada sob o mastro de uma bandeira viril
Enquanto a fumaça cinzeia o céu
Dorme em desassossego o enigmático mártir das florestas
E seu primitivo povo em danças coreografadas
Divertem americanos de blond hair and blue eyes

Por isso não fumo mais maconha
A própria realidade é suficiente para me nocautear
Puros sonhos se transformam em produtos
Enquanto procuro as armas certas para lutar
Bebo meu chá e viajo para mundos estranhos
Enquanto se trava a maior de todas as batalhas
E derrama o sangue com código de barras
De toda uma geração que urge em renascer
Das cinzas de seu próprio mundo
Ao som louco dos Mutantes e perigoso do calypso
Com freqüentes overdoses de desilusão
Desfalece enfim o espírito de uma geração
Filhos da Xuxa perdidos na caverna do dragão

Marcham caras pintadas criadas
Pelas ruas cinzas e sujas da Metrópolis
Robôs que já não sentem gosto de nada
Delicadamente revivendo a marcha da ilusão
Caminham sérios sem alegria de manchas na cara
No eterno carnaval
Aonde furiosos desfilam mascarados
De alguma forma esperando pela revolução

Eis que surge o líder
De brilho na cara iluminando a multidão
Com discurso sério e profundo
Fala sobre o amor e a dor
E fala sobre o fim dos tempos
E fala tudo de bíblia na mão
Adolescentes de piercing no nariz
Em um louco êxtase gospel
Desfilando moral e pregando desunião
Falando em línguas profetizando em espírito
Apedrejando veados, comendo bichas assadas
Enquanto escutam uma pregação no DVD
Anunciando uma nova ordem divina
Ao som de um suave hino celestial
Decapitando macumbeiros e castrando islâmicos
Trazendo a justiça de um versículo bíblico
Anunciando a nova era pela televisão

Por isso sigo só
Em silêncio caminho
Logo hoje que não fumei nada
Logo hoje que renunciei ao papa
Logo hoje que não creio em mais ninguém
Uma linda menina aparece, assim, e some na esquina
Enquanto caminho de blusa amarela
Apertando firme meu cigarro entre a mão
Se tivesse vodka daria um gole
Se tivesse esperança iria brindar
Uma taça de esperança à minha geração

Verdade incoveniente esta
Que não convence enquanto esquenta o sol
Queria encontrar Hesse na esquina e convida-lo para um charuto
Se eu fumasse charutos
E para um bom papo sobre a alma, sobre Demian
Pois se encontrasse Hesse
Talvez iluminasse meu coração
Que debaixo de tanto sol e poeira
Enrijesse ficando quase cínico diante da esperteza
E se humilha e se rende na frente de uma vitrine
E de noite enquanto caminho , me lembra com violenta implicância
Hey, rapaz você está vivo

Aonde morreu Hércules nasceu Wolverine
E sonha uma geração com os lábios de Nicole
Enterram na caverna do dragão a urgente mudança
Enquanto lutam no Iraque pela estranha supremacia
Dançam em uma have cheios de bala
e de bala cambaleiam por entre as vielas do Alemão
Ninguém mais guerreia por Helena pois Helena também morreu
E seu funeral foi visto on line por milhões
Veloz corre tudo hoje
Que não tenho tempo de sonhar
Mundo este de controle remoto
Mundo este aonde namoro em uma lan house
Mundo este aonde sou virtual

Matrix

Um bêbado cruza meu caminho
Pede 1 real e sigo sozinho
Embriagado em sua buchudinha
Em seu hálito de merla em terras de cipó
Ontem meu vizinho empenhorou a televisão
Com cinismo cheguei a pensar em um ato revolucionário
Mas ele apenas celebrava a própria escravidão

Celebro eu aqui a devastação da Amazônia
A exploração de petróleo e meu presidente
Faço festa diante da mórbida insatisfação
Bato palmas pra Bush e apedrejo Dalai Lama
Com a porra de sua paz e meditação
Assisto minha novela e me masturbo com a estrela
Capa da última play boy
Não tenho como me refugiar em Victor Hugo
Por isso leio Caras e encaro meu Brasil
Disfarçado sigo sozinho
Comendo fibras e uma taça de vinho
De blusa amarela e cigarro entre as mãos
Versejo o meu congresso e canto a corrupção
Sigo sozinho sorrindo
Pois sou parte de tudo isso e não perco o Faustão
Aqui também dançam as estrelas , explode avião
Aqui também choram mães e filhas e tios no Ratinho
E rebola animado Padre conduzindo multidão

Pasolini morreu enrabado em seu apartamento
Escrevendo um roteiro sobre negros
Tragédia maior a deste iconoclasta
Que segue sorrindo, porra to vivo !
No mar de lama da perfeição

Tenho de comprar o último Harry Potter
Acender incensos para o meu cartão
Se encontrasse na esquina Gandhi, fugiria de seu olhar
Iria procurar um copo de cachaça para não lembrar
Um pouco de dor não faz mal
Nem um pouco de poesia
Cruza apressado o noiado, quase tropeça nos próprios passos
Vampiro solitário renegado sem glamour e sem Hollywood
Apático na escuridão, sem pagar imposto, segue agoniado
Em busca de sangue na caverna do dragão

Jovens se lançam ao mistério
Cheio de bombas pelo corpo em nome de deus
Em nome de Deus explode a guerra
Por isso caminho sozinho sem Deus
Sem religião, cínico ao extremo, sem salvação
Pois minha religião é meu silêncio na multidão
Aonde oro preces atéias e canto hinos para a vida
E me perco, quase com fé na humanidade
Sem ver o céu nem o inferno
em outro lugar senão em mim

Cansado, repouso o corpo na sarjeta
E tenho uma vontade louca de chorar
Penso no caos penso em tanta coisa
Que quero parar de pensar
Foram dizimadas nações vermelha, nações amarelas
Sob o peso da cruz agonizaram negros
e hoje ainda agonizam em favelas
E celebram no eterno batuque da macumba
Seus deuses e orixás
Compro na esquina um apanhador de sonhos
E uma imagem de oxalá
Na mesma prateleira de ilusões
Aonde posso comprar tudo o que eu preciso
Um livro de Lao Tse, um chocolate suíço, um incenso xintoísta
Só a essência

A essência

A essência

Da vida

Não posso

pagar

Um pouco de poesia não faz mal
Nem um pouco de dor quando tudo vai bem
Socorro !!! só um pouco do pouco que resta
Do sonho de uma geração.

Um comentário:

Jarly disse...

oii bakana o blog!!!!
As postagens bem intereçantes!!!

E isso é so o começo heim!

valeu!

abraçus!