segunda-feira, 2 de junho de 2008

O PROFETA DA GENTILEZA


A primeira vez que eu ouvi falar sobre o Profeta tinha 5 anos. Início da década de 80, época de Roque Santeiro e desbunde, apesar de só desbundar anos mais tarde.
Valparaíso, minha cidade natal, no interior de São Paulo, é dividida pela linha do trem. Naquela época eu morava do lado de baixo dos trilhos e minha vó, no lado de cima. Alguns quarteirões nos separavam, nunca tinha ido sozinho para a casa dela. Mas naquele dia, cheio de coragem resolvi ir.
O jardim municipal, naquela época ainda com árvores frondosas, mundo vasto e misterioso, ficava logo depois da linha férrea. Foi ali, naquele lugar cheio de árvores antigas e aposentados, que vi pela primeira e última vez o Profeta.
A visão daquele homem me apavorou, cabelos brancos e longos, assim como a barba. Flores numa mão e na outra um estandarte. Discursava para alguns desocupados e aposentados. Queria correr, mas o medo veio acompanhado de curiosidade e fascínio. Na minha mente infantil só pensava em um personagem que marcou a minha infância, o Beato Salú.
Ainda não podia imaginar que aquele velho senhor trazia consigo uma mensagem tão urgente para o nosso mundo, GENTILEZA GERA GENTILEZA. Tratava se de José Datrino, o profeta Gentileza.
Ele tinha família em Valparaíso e muitas vezes, deixava o Rio de Janeiro para espalhar sua mensagem tão necessária.
Cheguei surpreso na casa de minha vó, ela estava aflita, minha mãe já tinha ligado mil vezes para saber de mim. Mas, mais aflito estava eu que quase atropelei as palavras para dizer que tinha visto o Beato Salu no jardim de Valparaíso.
A segunda vez que o Profeta Cruzou a minha vida foi através de uma linda menina , de olhos tão azuis quanto os dele. Era Luciana, sua sobrinha, por quem me apaixonei perdidamente. Luciana, a que fugia pela janela para ir nos bailes do falecido Valparaíso clube. Tinha alguma coisa de loucura, alguma coisa de inocência. Com ela, aprendi um pouco mais sobre o seu tio, figura fantástica... Gentileza sempre permeou minha vida, quando cheguei no Rio de Janeiro para fazer faculdade fiz questão de ir conhecer seus escritos no viaduto do Caju. Um livro ao céu aberto.
As expressões que ele utiliza são muito interessantes, critica o capetalismo, criou um código próprio de escrita numa grafia ímpar. Além de mensagens ecológicas, clamando um mundo mais ético.
José Datrino iniciou sua jornada espiritual após o drástico incêndio de um circo em Niterói. A tragédia o tirou de sua vida ordinária, como dono de uma frota de caminhões e o trouxe para um mundo novo, morria ali José Datrino e nascia o Profeta Gentileza.
Após o episódio no circo, comprou vários tonéis de vinho bom e distribui aos seus empregados, quando as pessoas iriam agradecer ele dizia Não digam obrigado, ninguém é obrigado a nada, digam estou agradecido.
Dias depois mudou se para o terreno aonde o circo se incendiou , derrubou uma cruz que haviam colocado lá em homenagem aos mortos e substituiu por um jardim de flores. Os parentes das vítimas iam ao seu encontro para serem confortados. Nascia aí sua compreensão sobre a importância da Gentileza que gera Gentileza.

A partir de então, dedicou sua vida a espalhar suas máximas, também ficava muito bravo com as mocinhas de saias curtas. Achava um desrespeito...Gentilileza foi um personagem muito popular nas barcas entre o Rio de Janeiro e Niterói. Fazia o percurso várias vezes no dia, espalhando suas palavras. Criando amigos, se popularizando.

Houve um homem enviado por Deus. Seu nome era José Datrino, revelado depois como Profeta Gentileza. O incêndio de um circo com centenas de vítimas foi a oportunidade para que irrompesse seu carisma profético.---Largou tudo e começou a consolar as vítimas. Ofereceu o vinho da alegria a todos que podia. Construiu um jardim no lugar do circo. Circulou pelo Brasil para depois fixar-se definitivamente no Rio."
Leonardo Boff

Após sua morte, seu livro aberto nos pilares do viaduto do caju foi coberto de cinza. A falta de sensibilidade política, mandou apagar tudo com cal. O que sensibilizou Mariza Montes a criar uma linda canção de protesto e homenagem, ao Profeta

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca

Para os que passam apressados
Pelas ruas da cidade
Merecem ouvir as palavras de Gentileza

Por sorte, o filósofo e professor da Universidade Federal Fluminense, Leonardo Guelman, realizou um projeto para recuperar e restaurar o livro urbano do Profeta, hoje é possível conhecer seus escritos no Viaduto do Caju, próximo a rodoviária Novo Rio.

Os escritos do Caju representam a obstinação e o desejo de um Profeta em fazer perenizar o seu verbo. A solução, por ele encontrada, mostra a agudeza de seu senso estético. Pilastras de sustentação de um viaduto, aparecem-lhe como tábuas de ensinamentos na cidade. Esta apropriação da paisagem, levada adiante nos seus escritos, marca, profundamente, uma mudança na apreensão da imagem daquele local. A partir de sua intervenção, seu Livro Urbano torna-se a própria referência daquele território da cidade.
Leonardo Guelman

Gentileza andava com uma longa bata branca, flores nas mãos e um catavento, que dizia ser para esfriar a cabecinha da humanidade. No seu mundo simbólico e lúdico, deixou uma mensagem para refletirmos com muita seriedade

A Gentileza


Hoje em dia Gentileza atravessa a minha vida através de seu significado enquanto mito e símbolo, através de sua mensagem.
No atropelo do dia a dia, pessoas, atitudes e palavras gentis, relacionamentos gentis, negócios gentis, são raros.
A pressa deste mundo de controle remotos, de desconfiança, desta matrix virtual em que vivemos , as relações humanas cada vez mais sem contato , sem calor, nos leva a uma existência neurótica e sufocante.
A gentileza essencial nos torna sempre melhor, mais amigos, mais irmãos, mais solidários, mais vizinhos. A idéia da Gentileza pode expandir se ao meio ambiente, a mãe terra. Devemos ser gentis com a natureza para garantirmos a sobrevivência de nossa espécie. Por um mundo mais saudável e humano.

4 comentários:

Rodolfo Curumim disse...

cara.. que coincidência... to colhendo material sobre Gentileza com os parentes dele em valparaíso... tem muita coisa escrita e muitas histórias... não vou publicar para não parecer plágio mas esse homem merecia uma homenagem de mais alcance!

Claudia Bártholo disse...

Sergião amei o texto...
lembro a 1ª vez que vi as paredes do viaduto todas pintadas, fiquei emocionada, pois só vim a conhecer o Profeta, através da Marisa Monte... e depois de escutar e cantarolar sempre esse música, quando vi as gentilezas dele grafadas na parede, achei o máximo...
está maravilhosa essa postagem, parabéns!
"por isso eu pergunto a você no mundo, se é mais inteligente o livro ou a sabedoria..."

BEIJOS amigo.

Dilan disse...

Adorei essa postagem, esses dias estava me lembrando muito dele, rss...
bjão!

sérgio de carvalho disse...

valeu querida...gentileza me lembra das épocas de nossa Biblioteca Mágica